a Diana é uma menina tão doce. há uns tempos - penso que no fim de um dia que passámos juntas, quando ela tinha que voltar para os pais, o que é sempre um momento muito doloroso - dei-lhe um dos nossos peluches, para que pudesse levá-lo, cuidar dele e (talvez) sentir-nos assim mais próximas. ela escolheu o Quiver, um pinguim adorável que já tenho há anos e que é o preferido dela.

uns dias depois ela liga-me, muito preocupada:

- sílvia! acho que perdi o quiver!

acabou por encontrá-lo. a história por detrás do desaparecimento era esta: a nossa mãe pediu à Diana que dormisse a sesta; então a Diana decidiu que o quiver também precisava de dormir a sesta e foi tapá-lo com uma manta, para ele ficar quentinho. e depois só não se lembrou de procurar debaixo da manta. :)

Lisbon Film Orchestra

há dois anos atrás (pouco depois de começarmos a dar beijinhos) o Filipe e eu fomos pela primeira vez a um concerto da Lisbon Film Orchestra e eu, que até não sou muito dada a lágrimas, chorei de felicidade. depois disso dissemos que íamos esforçar-nos por vê-los todos os anos; é sempre diferente, é sempre uma experiência única e maravilhosa.

este ano vai acontecer a coisa maravilhosa que é isto:

... e é possível que, por motivos que não conseguimos de todo controlar, nós não possamos ir. (aliás: as coisas estão de tal modo que se pudermos ir isso é uma má notícia.) e então eu estou aqui completamente dividida: por um lado, não podermos ir significa uma coisa boa e permitir-me-ia respirar de alívio; por outro, eu adoro a disney, adoro, e este parece um programa maravilhoso, uma noite mais que mágica. oh well...

isto tem que ser dito:

pessoas que vão almoçar a um bar da faculdade, chegam ao tal bar, vêem uma fila grande para comprar a comida, vêem também uma mesa livre e pensam perfeito!, vamos deixar aqui as nossas coisas e guardá-la para nós: não, isso não é super esperto, como vocês provavelmente pensam. é só muito, muito parvo. e imbecil.

o impensável aconteceu:

estou seriamente a pensar comprar um macacão.

[desabafo]

os meus pais são religiosos. católicos, para ser exacta. ou melhor: talvez deva dizer que a minha mãe é católica, e o meu pai dirá que é católico (se tiver mesmo que dizer alguma coisa.). isto não me diz respeito e para ser sincera também não me incomoda. o que me incomoda é que, como aconteceu comigo e com as minhas irmãs, o catolicismo da minha mãe está agora a ser activamente impingido à minha mana pequenina.

- sabes, sílvia, no domingo passado a mamã levou-me à missa.

os meus pais são os pais da Diana. cabe-lhes a eles escolherem o modo como devem educá-la, e (infelizmente, a meu ver) parece-me que eles decidiram que a educação dela deve passar pela religião. e agora? não acho que tenha o direito de boicotar (ou tentar boicotar) esta escolha. acredito que esta é uma decisão que deve pertencer aos pais, e se alguém um dia tentar passar por cima de mim no que diz respeito à educação dos meus filhos (como os meus avós tentaram fazer com as netas a vida toda, puxando-nos, nas costas dos meus pais, para a religião deles) vão haver consequências graves; isso é uma das coisas que simplesmente não tolero. argumentar que eu não preciso de me afirmar abertamente contra as crenças dos meus pais, que posso só tentar explicar a minha posição à Diana - tudo bem, mas a Diana é uma menina de sete anos que me adora e a quem eu adoro, e eu não duvido de que a minha tomada de posição, perante ela, em relação a este assunto a ia influenciar grandemente. e, de novo, isto não me parece correcto; é, no mínimo, uma falta de respeito para com os meus pais.

mas e se desrespeitar os meus pais contribuir para o bem estar da Diana?

pessoalmente (e suponho que o ênfase deva aqui estar), e mesmo pondo de parte o facto de eu achar que a coisa razoável é não educar uma criança numa religião, sinto que o facto de ter sido criada numa religião me prejudicou. isto é: para mim, não só é errado (ou, vá, muito questionável) como  ainda activamente prejudicial. e eu gostaria que a minha mana pequenina não tivesse que passar por isto. gostaria que não passassem anos a tentar forçá-la a acreditar em pure nonsense (enquanto outras pessoas - ou talvez (o cúmulo da ironia!) as mesmas - lhe falam sobre a extrema importância do pensamento crítico), gostaria que ela não crescesse a pensar que tem que existir mais alguma coisa, que há coisas inexplicáveis e inquestionáveis. odeio que ela vá crescer a ouvir falar de como o ser humano é fraco, e pequeno, e essencialmente nada sem deus, e talvez a acreditar em tudo isto. odeio esta mensagem de rebaixamento, de falsa humildade, de nós não somos nada. custa-me tanto que ela tenha que passar por isto.

resumindo: não sei o que fazer, não sei o que posso fazer e a ideia de não fazer nada é profundamente revoltante.
eu sou uma pessoa de sol. não me importo nada que esteja frio - até prefiro - desde que o sol esteja a brilhar no céu; os dias cinzentos deixam-me a alma cinzenta e os dias de chuva são os mais tristes, aqueles em que me sinto sempre menos motivada, menos capaz, menos bonita.

é por isso que é tão estranho reconhecer em mim um certo longing por dias assim muito outonais. é que o filipe e eu fomos viver juntos em novembro, e portanto quando acordo com o céu cinzento isto trás-me mil recordações dos nossos primeiros dias juntos e é tão doce e tão bom. também, ficar na cama com um livro e uma caneca bem quente de café com leite não condiz com sol!, fazer crepes e levar-lhos à cama em jeito de bom dia meu amor é mil vezes melhor no inverno e os melhores filmes vêem-se a dois, enrolados em mil mantas, com canecas cheias de chá quentinho nas mãos. andar de braço dado com ele, muitos enconstadinhos, sob o nosso guarda chuva azul-noite, azul-belo. chamem-me romântica e tonta mas os dias de outono e inverno parecem perfeitos para se estar apaixonado.