considerações | a diferença que fazem pessoas simpáticas e competentes

andava numa demanda para encontrar os jeans perfeitos. bom, começou como a demanda para encontrar os jeans perfeitos, mas depois, à medida que o meu desespero aumentava, transformou-se na demanda para encontrar uns jeans confortáveis (ênfase no confortáveis!) que me assentassem de forma minimamente decente*. decidi experimentar a salsa. na primeira vez que lá fui, pedi para experimentar jeans de corte recto. resultado: fugi apavorada do meu reflexo no espelho do provador, ou quase. na segunda pedi uma coisa intermédia entre recto e muito justo. a senhora deu-me umas push-up para experimentar. jesus. da terceira vez (já sem esperança) expliquei exactamente a uma (nova) menina o que pretendia e qual era o meu problema. ela ouviu-me, olhou para mim e além de alguns modelos que satisfaziam os meus requisitos, mandou-me experimentar uns jeans de perna justa - que eu ia ver, que eram super confortáveis, que só tínhamos que encontrar o modelo certo para mim e ela achava que aquele ia cair bem, mimimi.

resultado: uau!

ela estava absolutamente certa. a perna é justa mas a ganga não está a tentar estrangular-me as penas, só a acariciá-las docemente (sim, é assim tão bom.). e assentam tão bem! até o filipe me mandou trazê-las connosco. isto tudo para dizer que ter uma pessoa profissional e interessada atrás do balcão faz toda a diferença; se não fosse a menina eu teria voltado a sair da loja de mãos a abanar e super irritada, e assim descobri um mini milagre. :)

*nota para as pessoas da bershka e afins: eu sei que pode ser difícil de acreditar, mas pessoas no mundo cuja metade inferior das pernas não se assemelha a um palito. por favor, lembrem-se de nós!

sílvia, a technologically impaired (but not anymore!)

rendi-me ao século vinte e um e antes de ir para helsínquia e comprei um tablet. esta foi a minha primeira concessão aos avanços tecnológicos do mundo recente; vejo crianças de oito anos com telemóveis tão grandes que não lhes cabem nas mãos e mantenho-me fiel ao meu nokia básico, cuja bateria é praticamente eterna. mas o meu computador portátil, além de grande e pesadão, nunca recuperou do incidente do sumo de laranja do ano passado, e como deixei todas as pessoas importantes em portugal precisava de conseguir chegar a eles facilmente, sempre que quisesse. daí o tablet - não sem alguma relutância.

entretanto a relutância passou e admito que a coisa me dá imenso jeito, para tudo! (especialmente porque eu sou uma daquelas pessoas maníacas que consulta o email cinquenta e três vezes a cada hora, e o meu nokia primitivo dá para muito pouco.) ainda assim, culpo o tablet pela minha ausência mais ou menos prolongada aqui do blog: detesto (detesto!) escrever naquilo, não tenho jeito nenhum. agora que já voltámos à faculdade e estamos a tentar criar uma rotina (ênfase no tentar - isto do doutoramento é esquisito) voltou a minha vontade de vir para aqui falar de pequenos nadas. vou permitir-me ficar feliz por isso, também. :)

[reminiscências]

entrei na sala, vi-o deitado na cama estreita, ligado à máquina, e vieram-me as lágrimas aos olhos. não as esperava: sabia o que estava a acontecer, sabia que ia acontecer e tenho dito a toda a gente que apesar de tudo isto vai ser uma coisa boa; que ele vai começar a sentir-se melhor, que o vai deixar mais preparado para tudo o que aí vem. mas entrei na sala e ele parecia tão frágil, ali deitado. e eu quero estar com ele o tempo todo e agarrar-lhe a mão e falar sobre pequenos nadas e não posso; ele está ali e eu estou longe dele, à espera, a perguntar-me o que ele estará a sentir, o que estará a acontecer, sem poder fazer nada.

1 de Setembro de 2015
não gosto de mim na minha versão mais prática. não gosto que todas as minhas meias sejam pretas ("meias claras são mais difíceis de lavar!"), não gosto que noventa por cento dos meus sapatos tenham sido, durante toda a minha vida, pretos  ("vai bem com tudo"), e que as excepções ao preto sejam para o castanho e para o camel; não gosto de me aperceber que compro sempre malas pretas (com uma excepção para um azul bonito, vá...), de que roupa interior é preta, de que os elásticos e ganchos para o cabelo são pretos... e a lista continua. demorei anos a permitir-me os all star amarelos do amor. e eu gosto tanto de cores. elas fazem-me tão, tão feliz! estou cansada de ser prática. preciso de ser diferente para ser mais feliz.

tenho uma péssima relação com dinheiro. penso que talvez resulte da forma como fui educada - numa casa de seis, aprendemos a poupar desde pequenas. o que é uma coisa boa, é claro; aprendi a não desperdiçar dinheiro com coisas absolutamente supérfluas, a fazer escolhas - será que quero ou preciso mesmo disto?, e quando comecei a ser monitora (yay!) criei uma conta poupança para onde ia, mensalmente, uma pequena parte do meu salário. tudo isto é bom. contudo, às vezes um miminho faz-nos bem. uma coisa não essencial que nos deixa feliz, alguma coisa que nos faça sentir bem. e eu não sei lidar com isto. a ideia enraizada em mim é a de que o dinheiro é um amo terrível, uma coisa absolutamente essencial que nos escraviza e que é fonte de dores de cabeça e preocupações toda a vida, quando a coisa razoável a fazer (parece-me) seria admitir que o dinheiro é necessário mas que também pode (e deve) ser usado para nos tornar, de algum modo, mais felizes (com algum bom senso, é claro).

isto significa que cada vez que penso em oferecer-me um miminho sinto-me quase num dilema moral. e que quando decido efectivamente oferecer-me um miminho sinto-me sempre culpada a posterori, e não feliz como devia estar. a preocupação consume-me - o que é que eu estou a fazer!, devia ter posto este dinheiro na conta poupança. é terrível, e tonto e imbecil. (por outro lado sinto-me magnificamente bem quando consigo poupar mais do que estava à espera em cada mês, e faz-me sentir incrivelmente bem pôr um bocadinho mais no banco - esse é o upside, mas acho que, contas feitas, é um upside muito modesto para aquilo que estou a perder.)
ficámos deitados no sofá, lado a lado, às escuras. o céu era azul noite, cortado ocasionalmente pelas luzes dos aviões que passavam, tão perto. ele falou, o seu discurso pontuado de pequenas perguntas ou observações minhas, durante muito tempo. isto fazia-nos falta. fez-nos tão bem.

e se eu disser...

... que estou seriamente a considerar experimentar crossfit?