não gosto de mim na minha versão mais prática. não gosto que todas as minhas meias sejam pretas ("meias claras são mais difíceis de lavar!"), não gosto que noventa por cento dos meus sapatos tenham sido, durante toda a minha vida, pretos ("vai bem com tudo"), e que as excepções ao preto sejam para o castanho e para o camel; não gosto de me aperceber que compro sempre malas pretas (com uma excepção para um azul bonito, vá...), de que roupa interior é preta, de que os elásticos e ganchos para o cabelo são pretos... e a lista continua. demorei anos a permitir-me os all star amarelos do amor. e eu gosto tanto de cores. elas fazem-me tão, tão feliz! estou cansada de ser prática. preciso de ser diferente para ser mais feliz.
tenho uma péssima relação com dinheiro. penso que talvez resulte da forma como fui educada - numa casa de seis, aprendemos a poupar desde pequenas. o que é uma coisa boa, é claro; aprendi a não desperdiçar dinheiro com coisas absolutamente supérfluas, a fazer escolhas - será que quero ou preciso mesmo disto?, e quando comecei a ser monitora (yay!) criei uma conta poupança para onde ia, mensalmente, uma pequena parte do meu salário. tudo isto é bom. contudo, às vezes um miminho faz-nos bem. uma coisa não essencial que nos deixa feliz, alguma coisa que nos faça sentir bem. e eu não sei lidar com isto. a ideia enraizada em mim é a de que o dinheiro é um amo terrível, uma coisa absolutamente essencial que nos escraviza e que é fonte de dores de cabeça e preocupações toda a vida, quando a coisa razoável a fazer (parece-me) seria admitir que o dinheiro é necessário mas que também pode (e deve) ser usado para nos tornar, de algum modo, mais felizes (com algum bom senso, é claro).
isto significa que cada vez que penso em oferecer-me um miminho sinto-me quase num dilema moral. e que quando decido efectivamente oferecer-me um miminho sinto-me sempre culpada a posterori, e não feliz como devia estar. a preocupação consume-me - o que é que eu estou a fazer!, devia ter posto este dinheiro na conta poupança. é terrível, e tonto e imbecil. (por outro lado sinto-me magnificamente bem quando consigo poupar mais do que estava à espera em cada mês, e faz-me sentir incrivelmente bem pôr um bocadinho mais no banco - esse é o upside, mas acho que, contas feitas, é um upside muito modesto para aquilo que estou a perder.)
nostalgia
ao descer a avenida da liberdade encontrei um senhor a vender castanhas assadas. o cheiro delicioso pairava no ar. é então oficial: chegou o outono.
era um final de dia terrível, em que eu me estava a sentir triste, irritada e em geral terrivelmente insatisfeita com a vida. ele pegou-me na mão, disse-me para pôr um vestido bonito, pôs a mesa na sala, acendeu velas e convidou-me para jantar. disse-me mil vezes que estava linda. conversámos e conversámos e conversámos. o amor também é alguém que toma conta de nós em momentos assim.
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