não sei se isto acontece com todas as pessoas: o meu maior problema, quando corro, sou eu mesma. caramba, já é difícil o suficiente per se: a respiração que teima em tornar-se pesada e difícil, as pernas como chumbo a cada passo. mas torna-se horrível quando o meu cérebro se vira contra mim e começa a sabotar-me. isto é tão cansativo, sílvia. podias parar. podias andar o resto do tempo, não seria assim tão mau. não seria tão bom descansar um bocadinho? olha, um banco. não seria agradável? então, para continuar a mover-me preciso não só de ignorar os pedidos do meu corpo, como também de ignorar a vozinha preguiçosa na minha mente. esta última custa muito.
mas eu sou teimosa, muito teimosa. e (embora em geral seja difícil distrair-me enquanto corro) há sempre momentos de leveza que me dão asas. hoje havia muitas famílias no parque onde corro, a aproveitar o fim de tarde solarengo; e depois encontrei (o que penso serem) amendoeiras em flor. centenas de pequenas flores brancas, tão lindas, tão lindas! mesmo na recta final encontrei uma subida terrível que nunca tinha feito. custou muito, muito; mas cheguei ao cimo e estava numa espécie de topo de uma colina, corria uma brisa fresca, o sol estava a pôr-se, e eu estava sozinha com o mundo.
o mundo é um lugar belo.