não sei se isto acontece com todas as pessoas: o meu maior problema, quando corro, sou eu mesma. caramba, já é difícil o suficiente per se: a respiração que teima em tornar-se pesada e difícil, as pernas como chumbo a cada passo. mas torna-se horrível quando o meu cérebro se vira contra mim e começa a sabotar-me. isto é tão cansativo, sílvia. podias parar. podias andar o resto do tempo, não seria assim tão mau. não seria tão bom descansar um bocadinho? olha, um banco. não seria agradável? então, para continuar a mover-me preciso não só de ignorar os pedidos do meu corpo, como também de ignorar a vozinha preguiçosa na minha mente. esta última custa muito.

mas eu sou teimosa, muito teimosa. e (embora em geral seja difícil distrair-me enquanto corro) há sempre momentos de leveza que me dão asas. hoje havia muitas famílias no parque onde corro, a aproveitar o fim de tarde solarengo; e depois encontrei (o que penso serem) amendoeiras em flor. centenas de pequenas flores brancas, tão lindas, tão lindas! mesmo na recta final encontrei uma subida terrível que nunca tinha feito. custou muito, muito; mas cheguei ao cimo e estava numa espécie de topo de uma colina, corria uma brisa fresca, o sol estava a pôr-se, e eu estava sozinha com o mundo.

o mundo é um lugar belo.

sempre, sempre

*sílvia envia um email a si própria*
trinta segundos mais tarde: oh look! um email novo!

Sintra

tenho tantas saudades tuas.
(é que num momento de delírio passei pela sportzone e acabei por comprar uns ténis de corrida. depois de chorar a pensar em todas as coisas super fixes que poderia ter feito com o dinheiro que gastei no raio dos ténis, decidi que a única forma de sair bem disto era usá-los. muito. e então comecei a correr. wish me luck!)
hoje comecei a correr. comecei, enfim: andei muito mais do que corri, mas não me vou martirizar com isto - foi só o primeiro dia. a ideia é (pelo menos por agora) fazer sempre melhor que no dia anterior. nem que sejam só mais cinco minutos, mais um quilómetro. fazer melhor.

logo à noite vou passar pelo supermercado e encher o frigorífico de coisas boas; comprar fruta e fazer sopinha, resistir ao pão (a coisa no mundo que eu mais gosto de comer). sei lá, tentar ser um bocadinho mais controlada, um bocadinho mais saudável. e gostar um bocadinho mais de mim. sim: gostar um bocadinho mais de mim.

meanwhile in wonderland

estamos a ver Prison Break!
por vezes, leio pessoas que estão a atravessar um momento muito mau; estão deprimidas, estão sufocadas, não conseguem sonhar, não conseguem propor-se nenhum objectivo além de sobreviver a mais um dia; por vezes, este momento muito mau não é de todo um momento: arrasta-se há anos, mais do que se querem recordar, quase uma vida. nesses momentos nascem-me duas coisas no coraçao. a primeira é uma empatia tremenda, um deixa-me ajudar-te, por favor! que mal cabe em mim. a segunda é uma vozinha na minha cabeça a pedir-me para pôr os meus problemas em perspectiva, as minhas lutas diárias em perspectiva. nunca houve um momento na minha vida em que considerasse seriamente a hipótese de morrer, em que essa fosse a melhor alternativa; nunca. estar viva tem tanto potencial, tantas coisas boas, mesmo nos piores momentos. eu gosto tanto, tão grande e terrivlemente de viver; é a melhor droga do mundo. não o trocaria por nada, e nos momentos em que percebo isso todo o meu medo, a minha insegurança, a minha faltadetudo, tudo isso desaparece (quase, quase...) e eu percebo que apesar de muitas vezes me focar nas nuvens cinzentas, por detrás delas (e não são assim tantas) o (meu) céu é muito azul.