vivo em lisboa, a rainha do maior-número-de-cafés-por-metro-quadrado. ainda assim, nunca consegui encontrar um sítio onde o café seja tão delicioso como no cafezinho modesto, numa terrinha minúscula, onde costumava ir, todos os domingos, com o meu pai.
a minha mana pequenina hoje não queria ir para a escola, coisa que me surpreendeu muito - ela é, geralmente, muito interessada e aplicada. porque não, princesa? porque vamos dar mais letras e eu já sei o alfabeto todo...! e isto preocupa-me. preocupa-me que ela ande desmotivada; já me confessou que começa a detestar ter Português, porque está cansada de desenhar letras (que ela já desenha na perfeição, saliente-se). preocupa-me e aborrece-me que ela tenha tanto potencial desperdiçado em actividades que não puxam por ela e que chegam inclusivamente a aborrecê-la. a culpa não é da professora, penso, mas sim da turma: são meninos do primeiro e segundo ano juntos, o que já é complicado para a senhora em termos de divisão de tarefas, mas o pior mesmo é que há níveis incrivelmente diferentes, que vão do ler autonomamente, como a minha D., ao nem sequer saber as vogais (no caso de duas meninas vindas de famílias muito disfuncionais que já faltaram a mais de metade das aulas). sei que a professora faz tudo o que pode, mas ainda assim custa-me; quem está aqui em falta, penso, é o sistema de ensino, feito à medida para o aluno médio-baixo e quase excruciante para os meninos e meninas fora dessa categoria. também não há verbas para pôr os meninos que progridem mais depressa (são vários, mesmo só na turma da D.) por algumas horas com um professor diferente, que pudesse motivá-los mais e dar-lhes actividades interessantes. em casa vamos tentando estimulá-la - mas cuidadosamente, já que não se pretende que ela fique ainda mais aborrecida durante as aulas. sinto-me tão irritada, e tão de mãos atadas.
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