desenvolvi uma alergia ao desodorizante do f., que roubei porque cheira tão bem e cheira tanto a ele. oh...
quando o f. e eu estivemos nas urgências de oftalmologia, senti uma pontada tão grande no peito que soava demasiado como oh meu deus porque é que eu não fui para medicina. sei que teria detestado o curso, não fui feita para aqueles moldes (e sempre soube disso, e foi uma grande razão para pôr medicina de parte), mas às vezes penso se não deveria simplesmente ter aguentado seis anos de desespero e infelicidade (sei que o seriam). o que vem depois, a prática médica, já me seria (julgo) agradável.
contudo, a matemática proporciona-me não só um futuro de sonho como um presente maravilhoso - a licenciatura e o mestrado, embora stressantes, foram um prazer. portanto, ao escolher matemática, escolhi felicidade a começar já, e não num qualquer momento do futuro, como o fim do curso ou o terceiro emprego ou o que seja. e isso deixa-me feliz e segura da minha decisão.
ainda sobre a dissertação:
devo acrescentar que gostei mil vezes mais de fazer a dissertação, e de tudo o que isso envolve, do que do típico semestre aulas-exames-aulas-exames. aliás, a minha vontade de voltar a isto (como farei já em setembro) é quase nula: com o passar dos anos venho a ter cada vez menos vontade de fazer exames, já que nunca me parece que reflictam apropriadamente o que sabemos e o conseguimos fazer e me parecem depender demasiado de factores externos como a sorte. mas paciência...
dissertação
o período de elaboração da minha dissertação de mestrado foi um dos mais stressantes e debilitantes da minha vida, penso, mas de uma forma estranha. olhando para trás, e apesar de ter sido há tão pouco tempo, recordo-o já fragmentado; como milhares de instantâneos meio sobrepostos, sem nenhuma ordem em particular, ao longo da parede gigante e sinuosa que é a minha memória. lembro-me de estar em casa do f., de manhãzinha, enquanto ele dormia, e tentar não desesperar enquanto o meu cérebro se recusava a entrar em modo cálculo de sequentes e se agarrava à dedução natural; com medo de nunca compreender o suficiente, com tanto medo que não me atrevia a expressá-lo por palavras. lembro-me de como, a altas horas da noite, exausta e ainda a trabalhar, tudo se tornava pretexto para rir. lembro-me (mais do que tudo) do medo constante. medo de não conseguir terminar a tempo, de não fazer o suficiente, de não ser suficientemente boa. um medo tão grande que me levava às lágrimas, incontroláveis e irritantes. lembro-me que as "pausas" eram apenas momentos em que, em vez de me dedicar a escrever a tese ou a aprender coisas, me dedicava à parte estética da coisa, e a resolver problemas do LaTeX. lembro-me de ver outras teses de mestrado e pensar eu não sou capaz de fazer isto eu não sou capaz de fazer isto. sei que, sem o f., teria enlouquecido, ou desistido de a terminar a tempo de a defender em julho, ou tido um break down.
mas agora está acabada e, embora eu saiba que, com mais tempo, poderia ter feito melhor, e apesar de quase me arrepiar escrever isto, tenho algum orgulho nela e algum orgulho em mim. acreditei durante tanto tempo que fazer uma tese em Lógica era demasiado para mim que mal consigo apreender que de facto consegui. e foi bom, e mostrou-me (se pelo menos me lembrasse disto mais vezes!) que sei escrever, e pensar, e fazer estes projectos grandes e entusiasmantes e bonitos. e foi bom! aqueles momentos incríveis em que os detalhes de uma demonstação encaixam perfeitamente e nós compreendemos, de verdade, estiveram presentes, comigo, ao longo de todo o percurso - ainda que meio ofuscados pelo omnipresente medo. e eu mal posso esperar por começar a dedicar-me ao (ambicioso, e terrivelmente difícil, imagino) projecto que será a minha tese de doutoramento, e quem disse aquela coisa sobre como nunca conhecermos as nossas verdadeiras capacidades se não tentarmos o muito difícil, o impossível, não podia ter mais razão, e eu sou feliz.
eu não digo que casas perfeitas em lisboa é um mito
aaaaaah, encontrei a casa perfeita...! em santos-o-velho. *ar triste*
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