note to self: agarrarmo-nos desesperadamente a alguém que, sentimos nós (tantas vezes com razão), se está a afastar é uma terrível, terrível ideia. sufoca-te e não te deixa respirar e faz-te afastar de vez.
a normal person's sunday evening: ah, amanhã começa a semana de trabalho. vou aproveitar este última dia de lazer e descanso, pôr as séries em dia, ler 25646 livros e dormir mil horas!
 
sílvia's sunday evening: E NÃO FALEM COMIGO PORQUE É QUE TODA A GENTE DIZ TANTA INUTILIDADE QUE NEM SEQUER FAZ SENTIDO DEIXEM-ME TRABALHAR EM PAZ TENHO TANTA COISA PARA FAZER E NÃO VOU TER TEMPO E NÃO POSSO DORMIR E FODA-SE

é isto.
namorei a ideia de submissão durante algum tempo e depois descobri (ou percebi que sempre soube) de que não é assim que eu sou, de que tudo está errado com isso, para mim.

atrevo-me a dizer, num rasgo de inconfidência sexual que não me é característico, que ser submissa na cama me agrada e atrai e me faz ter as pernas fracas e ficar arrepiada de prazer. sim - se tiveres a personalidade certa para isso (o que é a personalidade certa, pergunto a mim mesma. um misto de confiança e determinação e controlo natural e oh), podes empurrar-me para baixo, amarrar-me e dizer-me o que fazer e eu vou estar voluntariamente nas tuas mãos e adorar cada segundo.

mas isto é só sobre sexo. em todas as outras áreas da minha vida (e ao contrário do que sempre achei) eu não gosto que me digam o que fazer. não gosto que tomem decisões por mim, não gosto que a minha palavra não seja a última. não gosto da vulnerabilidade. não gosto da subserviência. faz-me lembrar demasiado quando estava (quando me sentia) presa dentro do catolicismo, toda aquela história sobre como não somos nada sem deus e tudo isso. não, não, não.

eu não preciso de outras pessoas, de outras coisas, para ter valor. não há nada nem ninguém acima de mim. o que não sou eu a dizer que sou melhor que todo o mundo. mas não me vou rebaixar. vou cuidar de mim e dar-me valor e gostar de mim apesar de tudo. ainda que não agrade a outras pessoas. ainda que seja egoísta.
um elogio que venha do f. vale infinitamente mais que um elogio vindo de outra pessoa qualquer, simplesmente porque não é um elogio: é sinal de que ele (a pessoa mais razoável do mundo) conseguiu arranjar evidências que lhe permitiram extrair aquela conclusão, e isso é muito, muito bom.
eu nao sou uma pessoa muito racional e definitivamente nao sou uma pessoa razoável. é muito difícil para mim ponderar probabilidades na vida real, excluir possibilidades cuja probabilidade de acontecer é ínfima, racionalizar a minha vida e aquilo em que acredito e aquilo que sou. mas tento. tento, e tenho sempre o f., que é a pessoa mais racional e razoável do mundo, e que me aponta tantas vezes o caminho, e de quem posso sempre esperar uma argumentação racional e cheia de senso comum e que faz sentido.

o meu erro, claro, é que estou tantas vezes com o f., ele é de tantas formas o meu mundo, que começo, inconscientemente, a esperar o mesmo tipo de reacções a atitudes das outras pessoas. que sejam racionais, que estejam preparadas para defender uma convicção que tenham, que nao recorram a argumentos que não o são, que não cometam falácias lógicas, que analisem as situações com calma e frieza e, em vez de assumirem alegremente tudo o que o medo lhes sussurrar ao ouvido, ou em vez de ficarem magoadas com coisas que não fazem sequer sentido, pensem. mas as pessoas tantas, tantas vezes não têm este tipo de reacções. e então eu sou deixada a pensar, numa voz muito baixinha na minha cabeça, para eu quase não a conseguir ouvir, eu até gosto de ti mas agora queria tanto que te fosses embora e me deixasses em paz
as pessoas mais importantes da minha vida, as absolutamente essenciais, sao o f. e a d. e é isso.

seria de esperar que, ao fim de vinte e um anos (e meio) a praticar a arte de tentar ser uma pessoa, eu já estivesse habituada a sentimentos e já os aceitasse como meus em vez de me massacrar com torturas infinitas como "mas isto é errado".

relationships

já nem estou feliz. quer dizer, até sou porque há muitas, muitas coisas capazes de fazerem de mim uma pessoa contente e muitas destas combinadas tornam-me feliz. matemática. dias de sol frios. o f.. dormir até mais tarde. passear. amarelo. o copo do mickey. sítios bonitos, coisas bonitas. e no meio disto tudo faço por evitar o ponto principal, que é: estou feliz apesar de, e não por causa de.

a tristeza.