outro momento de perfeita clareza: i need to get my hands dirty. (e eu gosto tanto disto)

pela primeira vez na minha vida tive um momento de perfeita lucidez enquanto (quase) deixava a apatia rolar sobre mim e levar-me com ela. um momento perfeitamente claro em que descobri (embora já soubesse) que está nas minhas mãos; que se o mar insiste em tentar levar-te e puxar-te para dentro tu não páras (afinal, parar é morrer; muito literalmente aqui), mas lutas inteligentemente e ainda com mais força.

o momento perfeitamente claro em que percebi que podia decidir agir. embora custe, sim, muito. embora as circunstâncias não sejam perfeitas; nunca são. mas posso decidir agir. ser activa, fazer alguma coisa em relação a isto. só preciso de querer.
nada exprime (um certo tipo de) solidão tão adequadamente como estares à uma da madrugada a arrumar o teu quarto, lentamente, mecanicamente e em silêncio.
"I am alive and I write the sun."
 
— António Ramos Rosa, portuguese poet, hours before dying earlier today. He was 88 years old.
 
encontrado aqui.
 
não conheço, ainda, este senhor, e já me parte o coração
nas minhas ideias sobre o amor também tudo era preto ou branco. nunca imagei a complexidade inacreditável da gama de cinzentos que há aqui.

tu, desconhecido imaginário.

és um homem e tens barba, acho eu. os olhos não são demasiado importantes. maçãs do rosto bem definidas (não sei se gosto mais da característica em si ou da frase), mãos bonitas. mas tudo isto é mais ou menos irrelevante. és apaixonado por qualquer coisa que fazes e adoras (e reconheces e, portanto, aprecias essa paixão em mim. ainda que isso signifique diatribes intermináveis sobre matemática). ris-te, muito. fazes-me não ter medo de falar de nada (ainda que nunca perca completamente alguma hesitação). adoras livros. temos gostos tão semelhantes que roubo os teus e tu os meus. lemos saramago juntos e vêm-nos as lágrimas aos olhos (ou talvez só aos meus, mas tu percebes, tu percebes-me, e beijas-me as pálpebras devagarinho). agarras-me a mão, a cintura. olhas para mim. ouves tchaikovsky comigo e discutimos o melhor bailado dele, e eu ganho. vamos vê-lo juntos e a tua mão está na minha o tempo todo. não me dás palavras vãs quando o medo mal me deixa respirar; obrigas-me a ser racional mas também me beijas e abraças e enches-me só com o facto de estares ali. gostas de passear. sabes falar, sabes ouvir. não precisamos de planos para estarmos juntos. não precisamos de quase nada para estarmos juntos. temo-nos um ao outro. levas-me para a cama e fazes-me esquecer o meu nome e nunca o teu.

tu, desconhecido imaginário, de quem eu não preciso mas com quem sonho. não existes, és uma personificação de um amor que não suponho que possa existir mas tens lugar nos meus pensamentos (mais ou menos conscientemente) há anos. tu dás-me esperança. tu estás a matar-me. tu, a ideia de ti.
quão cega posso eu ser

capaz de reconhecer o amor nos olhos de qualquer outra pessoa, mas tomá-lo por pedras, por lixo, quando tropeço nele e continuo o meu caminho, quase sem olhar para trás