preciso

de um sítio só meu. um sítio que saiba a casa, à minha casa. a "minha casa" em lisboa consiste num quartinho (comfortável, mas pequeno pequeno pequeno) em que mal tenho espaço para me mexer e - este é o ponto importante - que me sabe sempre a temporário. it doesn't feel like home, ever. e a casa dos meus pais é, bem, a casa dos meus pais. quero uma casa minha, em que não tenha que preocupar-me com falar sozinha quando estudo álgebra. quero que este sentimento de temporário acabe; quero decorar as minhas paredes sabendo que são minhas (bem, tão minhas quanto algo pode ser); quero comprar conjuntos fofinhos de pratos e quero ter que decorar uma sala (ainda que demore séculos a fazer isto, a achar as peças mais bonitas). quero fazer as coisas à minha maneira. escolher tapetes (e mais tarde arrepender-me das cores que escolhi) e tomar decisões de arrumação e talvez fazer puzzles!, porque teria um sítio (espaçoso, hopefully) para as pôr e quero muito um espaço meu, meu, meu. hoje, por algum motivo, isso parece (quase) essencial para ser feliz.

(o que é impossível por agora mas não é impossível dentro de um ano e pouqinho. luta, sílvia. trabalha. por favor. por ti.)

coisas em quem não posso transformar-me

1. a minha mãe. a minha mãe está na classe das pessoas que tomam uma decisão (e são efectivamente capazes de se irritarem se lhes dizemos que talvez devessem/ pudessem fazer outra coisa) e depois, algum tempo mais tarde, podemos ouvi-las a lamentar-se por as coisas terem sido assim ("está lá sozinha... ai, se eu estivesse lá", etc.). estava nas suas mãos. estava nas suas mãos.
agora que finalmente falei sobre o assunto, não há como ignorá-lo.

estou tão cansada.
hoje - agora - tenho um medo tão terrível de morrer

não sei se porque adoro estar viva, ou porque há tanta coisa que ainda quero fazer, tanta coisa que continuo a adiar. (quão triste é isso.)
será que vai ser sempre assim? este aperto no coração, esta dor cá por dentro; sentir-me permanentemente, excruciantemente dividida entre lisboa (a minha cidade, o sítio onde gosto e consigo trabalhar, as pessoas) e a minha adorada, adorada, adorada bebé? (não quero ir-me embora, meu amor. quero estar contigo sempre, sempre)

e será que eu quero que deixe de ser assim ou, se deixar, significa que estás a crescer e eu te estou a perder aos poucos? eu não te quero perder, meu pequeno amor grande. não. tudo menos isso, meu amor.

Saramago

porque é que morreste?

eu sei, eu sei que a pergunta não faz sentido. mas às vezes ainda fico zangada contigo. e comigo por não te ter conhecido mais cedo. (não consigo deixar de pensar que talvez se eu fosse menos preconceituosa, talvez, talvez  me tivesse apaixonado por ti a tempo)

nunca mais vais escrever um livro novo. e um dia vou ter lido todos os teus romances e vai haver uma sensação de vazio tão grande, tão grande dentro de mim, porque ninguém mais escreve sobre Amor como tu escreves. nunca vou ter um livro autografado por ti - e, o que é pior, nunca vou ter contigo a conversa (ainda que curtíssima) que o pretexto do autógrafo me poderia proporcionar.

gostava tanto, tanto de ter a oportunidade de me sentar contigo e ouvir-te falar sobre o mundo. mas o que era uma possibilidade remota enquanto vivias é agora uma porta tão fechada que só olhar para ela me parte o coração.

as tuas cinzas estão em lisboa, a cidade do meu coração. há pelo menos algum conforto nisto: em saber que posso ir ao local onde agora pertence o teu corpo, ainda que a parte mais importante do que deixaste para trás não jaza aí. apetece-me muito, muito escrever-te uma carta. talvez o faça e a deixe algures. talvez me encha de coragem e escreva um dia a pilar, a quem invejo tanto a intimidade que teve contigo. talvez.
quem me dera, quem me dera, quem me dera ser uma pessoa racional.