agora que finalmente falei sobre o assunto, não há como ignorá-lo.

estou tão cansada.
hoje - agora - tenho um medo tão terrível de morrer

não sei se porque adoro estar viva, ou porque há tanta coisa que ainda quero fazer, tanta coisa que continuo a adiar. (quão triste é isso.)
será que vai ser sempre assim? este aperto no coração, esta dor cá por dentro; sentir-me permanentemente, excruciantemente dividida entre lisboa (a minha cidade, o sítio onde gosto e consigo trabalhar, as pessoas) e a minha adorada, adorada, adorada bebé? (não quero ir-me embora, meu amor. quero estar contigo sempre, sempre)

e será que eu quero que deixe de ser assim ou, se deixar, significa que estás a crescer e eu te estou a perder aos poucos? eu não te quero perder, meu pequeno amor grande. não. tudo menos isso, meu amor.

Saramago

porque é que morreste?

eu sei, eu sei que a pergunta não faz sentido. mas às vezes ainda fico zangada contigo. e comigo por não te ter conhecido mais cedo. (não consigo deixar de pensar que talvez se eu fosse menos preconceituosa, talvez, talvez  me tivesse apaixonado por ti a tempo)

nunca mais vais escrever um livro novo. e um dia vou ter lido todos os teus romances e vai haver uma sensação de vazio tão grande, tão grande dentro de mim, porque ninguém mais escreve sobre Amor como tu escreves. nunca vou ter um livro autografado por ti - e, o que é pior, nunca vou ter contigo a conversa (ainda que curtíssima) que o pretexto do autógrafo me poderia proporcionar.

gostava tanto, tanto de ter a oportunidade de me sentar contigo e ouvir-te falar sobre o mundo. mas o que era uma possibilidade remota enquanto vivias é agora uma porta tão fechada que só olhar para ela me parte o coração.

as tuas cinzas estão em lisboa, a cidade do meu coração. há pelo menos algum conforto nisto: em saber que posso ir ao local onde agora pertence o teu corpo, ainda que a parte mais importante do que deixaste para trás não jaza aí. apetece-me muito, muito escrever-te uma carta. talvez o faça e a deixe algures. talvez me encha de coragem e escreva um dia a pilar, a quem invejo tanto a intimidade que teve contigo. talvez.
quem me dera, quem me dera, quem me dera ser uma pessoa racional.
eu: estou tão nervosa com a coisa X.
pessoa: ahaha mas é tipo nervosa no bom sentido, right? tipo o tipo certo de nervoso!
eu (só em pensamento): FODA-SE EU POSSO ESTAR NERVOSA EM RELAÇÃO A UMA COISA BOA OU NERVOSA EM RELAÇÃO A UMA COISA MÁ BUT THERE'S NO SUCH THING AS "GOOD NERVOUS", BEING NERVOUS FUCKING FUCKING SUCKS
eu: pois...

conversas comigo mesma

ou, why i am never going to know myself.

- gostava de conhecer-me. mas nem sequer sei por onde começar...
- bem, vamos pensar em factos sobre ti.
- saber factos sobre mim é conhecer-me?
- ...
- acho que não deve ser bem a mesma coisa.
- bem, podemos começar por pensar em factos sobre ti.
- de acordo.*pensa* bem, que género de factos? "gosto de ananás" não parece especialmente relevante.
*aqui derivo para as possíveis razões para gostar de ananás. só provei ananás não enlatado quando já era crescida. pode ter-se dado o facto de ter ficado tão surpreendida por duas coisas com o mesmo nome serem tão diferentes que, como detesto o enlatado, passei a adorar o normal. bem, isso e é amarelo. anyway.*
- okay. vamos pensar em, sei lá - chamemos-lhe factos fundamentais para ti, para a pessoa que és. deve haver um conjunto de coisas que te define, certo? pelo menos a um nível básico and then we'll go from there.
- um conjunto de coisas que me define. eu sou definida por um conjunto de coisas? há um conjunto de princípios básicos, os meus axiomas? nem sequer sei se isto é verdade. pode ser só a minha faceta matemática (afinal talvez exista) a influenciar-me. e se existir são o quê? não faço ideia. como é que os encontro? como é que sei que os encontrei? como é que alguma vez vou encontrar mais do que perguntas atrás de perguntas atrás de perguntas...?