acho que não é suposto ser assim. acho que não é suposto eu ser assim.
quando somos crianças e vemos um filme ou lemos um livro, escolhemos a nossa personagem favorita (pelo menos eu escolhia sempre a minha personagem favorita - invariavelmente bela e inteligente) e fingimos para nós próprios, ou talvez com alguns amigos, que somos essa personagem. imaginamos que temos as suas vidas, imitamos os seus actos mais fantásticos, fingimos e sonhamos e desejamos ser assim.
e eventualmente, com a idade, isto muda. deixamos de tentar ser este ou aquele. podemos querer mudar - queremos mudar, naturalmente - mas acho que a maior parte das pessoas aceita o seu "eu", embraces it, e tenta gostar dele. mas... fica em paz com a essência da sua personalidade (seja lá o que isso for). aquilo que procuramos mudar a partir de certa altura é pontual, não é?, sermos menos egoístas, ou mais livres, ou menos inseguros, ou seja o que for. ainda que ao longo da nossa vida mudemos tanto que somos totalmente diferentes da pessoa que começámos por ter consicência de ser, não foi porque um dia acordámos e desejámos mudar completamente; foi uma série de pequenas mudanças pontuais, graduais.
mas eu não. eu não. eu ainda desejo ser a minha personagem favorita. talvez tenha crescido e a minha personagem favorita não seja já a menina mais bela. talvez seja a mais feliz. a que tem mais paz de espírito. a que sabe apreciar melhor o mundo, na sua complexidade, mas também as coisas pequeninas. a mais gentil, a de coração mais gentil. não sei... isso varia. mas dou comigo a contemplá-la e a desejar do fundo do coração ser assim. nem sequer quero mudar até me tornar semelhante a ela (na maior parte das vezes, é impossível), desejo apenas viver outra vida como outra pessoa. viver aquela vida, ser aquela pessoa.
(acho que o que os meus personagens favoritos têm em comum é a sua certeza, a sua segurança. nenhum deles parece questionar a pessoa que é, a vida que tem. parecem aceitá-la de braços abertos e parecem dispostos a tirar o melhor que conseguirem dela, sem se sentirem permanentemente atormentados pelos "e ses", pelo que poderia ser, como eu sou)
talvez as outras pessoa também se sintam assim e sejam só melhores a lidar com isso. talvez eu esteja só a vê-las de forma errada, a tirar a pior conclusão possível, como tantas vezes? eu não quero estar perdida no mundo. pior, eu não quero estar perdida em mim mesma, trancada dentro de mim mesma, impedida de sair pela pressão de tudo o que podia ser, tudo o que poderia ter sido...