a minha forma de lidar com a dor física é algo que me agrada. o que faço é simplesmente cerrar os dentes e aguentar até não poder mais. desprezo um bocadinho todas as coisas que me podiam ajudar, tornar a dor um bocadinho mais suportável, enquanto ela permanece abaixo do adjectivo pavorosa. o mesmo com o desconforto; não procuro pequenas formas de melhorar a situação em que estou, só pretendo que acabe rapidamente. não faz sentido nenhum que isto me agrade - não devemos simplificar a nossa vida o mais que pudermos? mas acho que me faz sentir um bocadinho mais forte. (menos cobarde, talvez)
sou como uma criança a tocar levemente com o indicador na coxa e a dizer para consigo, esta é a minha perna. toco com o indicador metafórico algures dentro de mim e digo, este é o meu coração. esta é quem eu sou. estas são as minhas mágoas. toco aqui e ali e penso, o meu egoísmo, o meu medo, a minha insegurança, o meu optimismo injustificado, a minha felicidade, o meu amor. aponto para mim mesma e penso, esta sou eu. estas são as minhas palavras. a dor que estás agora a sentir, fui eu que a criei. o ar intrigado de quem toca ao de leve numa ferida e vê o sangue nos dedos. toca de novo, lenta e deliberadamente, quase a medo. mais sangue. fui eu quem te feri.
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