"Ele nunca escorregou, ele nunca caiu, ele nunca voou."
"Sabes, aquela sensação de sufoco, em que dás por ti a respirar fundo,
segurando momentaneamente a respiração, porque é a única maneira que
conheces para prenderes as lágrimas mais um pouco dentro de ti. E logo a
seguir a raiva, pensas que é a tristeza, mas não é. A tristeza é bonita
de mais para que os outros a possam ver, é só tua, e tu sabes que não
vais querer partilha-la com ninguém. A seguir tens aquele nó na garganta
e sentes uma inquietação a percorrer-te o corpo, começas a tremer a
perna, a estalar os dedos, róis as unhas, suspiras cada vez mais fundo. A
esta altura os teus olhos já estão tão cheios que começas a ver a visão
turva, como se tivesse começado a chover e não houvesse para onde
escoar a água. Se alguém olha para ti finges que tens qualquer coisa no
olho, uma pestana serve perfeitamente para a ocasião, não tens bem a
certeza se acreditam, torces para que sim. Desvias o olhar para vários
sítios, porque achas que vais engana-los, aos olhos, - não, agora não -
pensas. O esforço é tanto que neste momento as tuas narinas abrem e
fecham, aprendeste também isto, para prolongar a demora. Depois é uma
questão de segundos até começar a escorrer água pela tua cara. Se
chegares até aqui sabes que já não há nada a fazer e o melhor é
colaborares. Sentes um certo alívio. Quando acabares sabes que toda a
superfície de pele imediatamente abaixo dos teus olhos vai arder, olhas
ao espelho, o quão mal pode estar. Passas água pela cara e respondes o
resto do dia "dormi mal, são olheiras de cansaço". Sabes que à noite,
quando agarrares a almofada com um abraço, vais repetir tudo, mas de um
modo mais natural, afinal já o fazes há anos, e vais pedir-lhes, às
lágrimas, que te embalem até adormeceres. E acredita, jamais alguém fará
tão brilhante trabalho."
da Leonor, There's a pea under my bed.
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