"Sabes, aquela sensação de sufoco, em que dás por ti a respirar fundo, segurando momentaneamente a respiração, porque é a única maneira que conheces para prenderes as lágrimas mais um pouco dentro de ti. E logo a seguir a raiva, pensas que é a tristeza, mas não é. A tristeza é bonita de mais para que os outros a possam ver, é só tua, e tu sabes que não vais querer partilha-la com ninguém. A seguir tens aquele nó na garganta e sentes uma inquietação a percorrer-te o corpo, começas a tremer a perna, a estalar os dedos, róis as unhas, suspiras cada vez mais fundo. A esta altura os teus olhos já estão tão cheios que começas a ver a visão turva, como se tivesse começado a chover e não houvesse para onde escoar a água. Se alguém olha para ti finges que tens qualquer coisa no olho, uma pestana serve perfeitamente para a ocasião, não tens bem a certeza se acreditam, torces para que sim. Desvias o olhar para vários sítios, porque achas que vais engana-los, aos olhos, - não, agora não - pensas. O esforço é tanto que neste momento as tuas narinas abrem e fecham, aprendeste também isto, para prolongar a demora. Depois é uma questão de segundos até começar a escorrer água pela tua cara. Se chegares até aqui sabes que já não há nada a fazer e o melhor é colaborares. Sentes um certo alívio. Quando acabares sabes que toda a superfície de pele imediatamente abaixo dos teus olhos vai arder, olhas ao espelho, o quão mal pode estar. Passas água pela cara e respondes o resto do dia "dormi mal, são olheiras de cansaço". Sabes que à noite, quando agarrares a almofada com um abraço, vais repetir tudo, mas de um modo mais natural, afinal já o fazes há anos, e vais pedir-lhes, às lágrimas, que te embalem até adormeceres. E acredita, jamais alguém fará tão brilhante trabalho."

"a brincar aos médicos

Aprendi a auscultar em ti.
Não o podia fazer em mim porque desde que te conhecia o meu coração batia mais rápido e as arritmias eram matéria avançada para quem estava a começar. Lembro-me de pôr os dedos na tua incisura jugular e descê-los pelo teu peito para encontrar o ângulo de Louis. Uma vez encontrado estava também descoberto o segundo espaço intercostal, que marquei com um marcador para saber onde tinha de pousar o estetoscópio. Estremeceste com as cócegas que a ponta fria te provocava mas contiveste o riso. Fui pressionando as tuas costelas para encontrar o quinto espaço intercostal e voltei a marcar. E para me facilitar o estudo (isso disse-te eu - na verdade queria ter era um pretexto para sentir a tua pele) marquei-te à superfície todos os contornos do coração e dos pulmões. Escalei-te a coluna vertebral com as polpas dos dedos e beijei-te a espinha mais saliente, aquela que dava um aspecto frágil à nuca quando te sentavas e apoiavas a cabeça na perna flectida. Quando já tinha feito de ti um mapa do tesouro pousei o estetoscópio nos locais certos e ouvi. Depois pousei directamente o ouvido.
Era tranquilizador ouvir-te e sentir-te comigo.
Agora que não estás deito-me com o relógio no pulso e ponho as mãos debaixo da cabeça porque o tic tac ritmado dos ponteiros fazem-me lembrar o teu coração. E ao sentir a minha carótida interna a pulsar na mão, perto do relógio, deixo-me enganar até adormecer ao pensar que existe um nós."
 
escrito pelo K., no Ser outro que não eu.
 
uau.
eu gosto tanto de ti. talvez devesse dizer mais; havia tanto mais a dizer. mas não consigo. é tudo demasiado bom e intenso e quero só guardá-lo no meu coração e faz-me tão feliz. por isso - espero que consigas ver tudo o que fica por dizer (e é tanto!) -, gosto tanto, tanto, tanto de ti
there's a grief that can't be spoken

O Canto de Aquiles

"- (...) Esqueci-me de dizer que o quis como companheiro. - Therapon foi a palavra que empregou. Um irmão de armas ligado a um príncipe por juramentos de sangue e amor.
- Há muitos anos que tento arranjar-te companheiros, Aquiles, e sempe os rejeitaste a todos. Porquê este rapaz?
    (...)
- Ele é extraordinário."

"E quando nadávamos, brincávamos ou conversávamos, eu era assaltado por uma sensação. Quase parecia medo, na maneira como me enchia e se avolumava no meu peito. Quase parecia choro, na maneira rápida como surgia. Mas não era nada disso, pois era ligeira em vez de pesada, radiosa em lugar de triste. Eu já conhecera momentos de contentamento, breves fragmentos de tempo durante os quais experimentara um bem-estar solitário (...). Mas, na verdade, essas experiências não consistiam tanto numa presença quanto numa ausência, numa suspensão do temor (...).
     Esta sensação era diferente. Eu sorria até as faces me doerem (...). Eu sentia cada nervo do meu corpo, cada sopro de ar contra a minha pele."

"Sinto o cheiro dele. Os óleos que usa nos pés, romã e sândalo, o sal de suor limpo, os jacintos sobre os quais caminhámos, o seu perfume esmagado contra os nossos tornozelos. Por baixo de tudo isso está o próprio cheiro dele, aquele com que vou dormir, com que acordo. Não consigo descrevê-lo. é doce, mas não apenas isso. É forte, mas não demasiado forte. Qualquer coisa semelhante a amêndoas, mas ainda não é isso. Às vezes, depois de termos lutado, a minha própria pele tem esse cheiro.
    Ele baixa uma mão para se apoiar. Os músculos dos seus braços descrevem uma curva suave, aparecendo e desaparecendo quando se move. Fixa-me com os seus olhos de um verde profundo.
    O meu pulso acelera sem que eu saiba por que razão. Ele já me olhou um milhar de vezes, mas há qualuqer coisa diferente no seu olhar, uma intensidade que desconheço. Tenho a boca seca e ouço o som da minha garganta quando engulo.
    Ele observa-me parecendo aguardar.
    Aproximo-me dele num movimento infinitesimal. É como o salto de uma queda de água. Até esse momento não sei o que vou fazer. Inclino-me para a frente e os nosso lábios unem-se, desajeitadamente. São como os corpos gordos das abelhas, macios, redondos e estonteados de pólen. Sinto o travo da sua boca - quente e doce do mel da sobremesa. O meu estômago treme e uma gota quente de prazer alastra sobre a minha pele. Mais."

"Ele estava deitado de lado a observar-me. Não o ouvira virar-se. Nunca o ouço. Aquiles estava completamente imóvel, com aquela imobilidade de que só ele era capaz. Respirei e apercebi-me da almofada escura entre nós.
    Ele inclinou-se para a frente.
    As nossas bocas abriram-se uma sob a outra e o calor da sua garganta adocicada passou para a minha. Eu não conseguia fazer nada senão absorvê-lo, cada respiração sua, o movimento suave dos seus lábios. Era um milagre.
    Eu tremia, com receio de o fazer levantar voo. Não sabia o que fazer, do que ele gostaria. Beijei-lhe o pescoço, toda a largura do peito e senti o sabor a sal. Ele pareceu inchar sob o meu contacto, amadurecer. Cheirava a amêndoas e a terra. Apertou-se contra mim, esmagando-me os lábios como que a transformá-los em vinho.
    Imobilizou-se quando o tomei na minha mão, macio como o veludo delicado das pétalas. Conhecia a pele dourada de Aquiles e a curva do seu pescoço, as dobras dos cotovelos. Sabia o efeito que o prazer tinha sobre ele. Os nossos corpos encaixavam um no outro como mãos. Os cobertores tinham-se enrolado à minha volta. Ele desembaraçou-nos deles. O ar sobre a minha pele foi um choque e comecei a tiritar. Ele estava recortado contra as estrelas pintadas e tinha a Estrela Polar pousada no ombro. A sua mão deslizou sobre a subida e descida acelerada da minha respiração ventral. Acariciou-me docemente, como que a alisar um tecido finíssimo, e as minhas ancas erguiam-se quando ele me tocava. Puxei-o para mim, a tremer sem parar. Ele também tremia. Parecia ter estado a correr durante muito tempo e muito depressa.
    Disse o nome dele, creio eu. Saiu-me como num sopro; era oco como uma cana pendurada que o vento fazia soar. O tempo não passava a não ser na nossa respiração.
    Encontrei o seu cabelo entre os meus dedos. Qualquer coisa se avolumava dentro de mim, um pulsar do sangue contra o movimento da sua mão. O rosto dele estava encostado a mim, mas eu tentei puxá-lo para mais perto ainda. Não pares, disse.
    Ele não parou. A sensação cresceu e cresceu até um grito rouco se soltar da minha garganta e a intensa eclosão impelir o meu corpo arqueado contra ele.
    Não era suficiente. A minha mão encontrou o lugar do seu prazer. Os olhos dele fecharam-se. Pelas pausas da sua respiração, pelo anseio, senti que havia um ritmo de que ele gostava. Os meus dedos eram incessantes, seguindo cada arfar acelerado. As pálpebras dele eram da cor do céu ao alvorecer; ele cheirava a terra depois da chuva. A sua boca abriu-se num grito inarticulado e apertámo-nos tanto que senti o seu calor jorrar contra mim. Ele estremeceu e ficámos imóveis.
    Lentamente, como a noite cai, apercebi-me da minha transpiração, da humidade dos cobertores, do suor a fazer deslizar os nossos ventres, um contra o outro. Separámo-nos, com os rostos tumefactos e magoados de beijos. A gruta tinha um cheiro quente e adocicado, como frutos ao sol. Os nossos olhos encontraram-se sem que trocássemos uma palavra."

"Uma certeza avolumou-se dentro de mim, alojou-se-me na garganta. Nunca o deixarei. Será assim, sempre, enquanto ele me quiser."

"Mais tarde, deitámo-nos na margem a aprender de novo as linhas do corpo um do outro. Esta, e esta, e esta. Éramos deuses na alvorada do mundo, e a nossa alegria era tão intensa que não conseguíamos ver mais nada senão o outro."

"Abriu os olhos.
    - Diz-me o nome de um herói que fosse feliz.
    Reflecti. (...)
    - Não conheces nenhum. - Ele estava sentado, inclinado para a frente.
    - Pois não.
    - Eu sei. Nunca te permitem que sejas famoso e feliz. - Ergueu uma sobrancelha. - Vou dizer-te um segredo.
    - Diz-me. - Adorava quando ele se comportava assim.
    - Eu vou ser o primeiro. - Pegou na palma da minha mão e pousou-a na sua. - Jura.
    - Porquê eu?
    - Porque tu és a razão. Jura.
    - Juro - disse eu, perdido no colorido das suas faces e na chama dos seus olhos.
    - Juro - repetiu ele."

"Procurámo-mos um ao outro e pensei em quantas noites tinha ficado acordado naquele quarto a amá-lo em silêncio."

"Eu conseguia reconhecê-lo apenas pelo tato, pelo odor, reconhecê-lo-ia, mesmo que fosse cego, pela sua respiração e pelo ruído dos seus passos. Reconhecê-lo-ia na morte, no fim do mundo."

 "Recordo-me do rosto dele, da pele tensa sobre as maças do rosto, da palidez da testa. Os seus ombros, em geral tão erectos e belos, pareciam descaídos. A tristeza avolumou-se dentro de mim, sufocando-me. A morte dele. Senti como se estivesse a morrer só de pensar nisso; a cair vertiginosamente através de um céu vazio e negro."

"Ele sabia, mas isso não era suficiente. A tristeza era tão grande que ameaçava rasgar-me a pele. Quando Aquiles morresse, todas as coisas velozes, belas e cintilantes seriam sepultadas com ele."

"Ele observava-me, com os olhos profundos como a terra.
    - Vens comigo? - perguntou.
    A dor interminável do amor e da mágoa."

"Os olhos de Príamo encontram outro corpo, o meu, deitado na cama. Hesita um momento.
    - Aquele é... o teu amigo?
    - Philtatos - responde Aquiles com brusquidão. O mais adorado. O melhor dos homens (...).

O Canto de Aquiles, Madeline Miller. o livro mais belo de sempre.

the song that won't leave my mind


Golden Slumbers, The Beatles.

once there was a way to get back homeward.
once there was a way to get back home...
(...)
sleep, pretty darling, do not cry
(...)
you're gonna carry that weight,
carry that weight a long time...
(a noite passada sonhei que estávamos a fazer as pazes. [odeio esta expressão.] depois lutei comigo mesma - quando comecei a acordar e o meu cérebro começou a dizer não, sílvia, foi só um sonho, lembro-me de pensar não, não pode ser. estou aqui. sou real. olha, tenho um programa a fazer download de death note e a minha pasta da reciclagem não está vazia como eu gosto sempre que esteja e de facto não a esvaziei ontem à noite portanto não é um sonho. não é um sonho. oh)