Saramago, gosto tanto, tanto de ti!
hoje de manhã, num daqueles momentos tão raros de espantosa clareza (que gostam de acontecer enquanto faço alguma tarefa tão habitual que não preciso de me concentrar no que estou a fazer), percebi mais um bocadinho de mim. agora a espantosa clareza já se foi e ficaram apenas alguns pensamentos que são mais como anotações que alguém, outro alguém, deixou na margem de um livro e que agora estou a tentar decifrar, do que factos mais ou menos claros sobre mim. o F. tem-me dito vezes sem conta para agir. ainda que me sinta insegura, e preocupada. ainda que ache que nunca vou conseguir. e eu nunca me tinha apercebido com tamanha lucidez do quão frequentemente escolho não agir. e porquê. hoje percebi (isto é: hoje formulei racionalmente uma coisa que já intuía há muito tempo) que esta é a minha forma de lidar com o medo, com o medo de não conseguir. não tentar. não é uma escolha racional - é uma criança assustada a encolher-se num canto e tapar os olhos na ilusão de que assim alguém, alguma coisa, vai impedir o que está prestes a acontecer, salvar a situação, mandar as coisas más embora.
a criança assustada sente sempre que, faça o que fizer, nunca conseguirá tomar as rédeas da situação, assumir o controlo. e isso assusta-a tanto que pensa que, bem, então não vale a pena fazer nada. e permanece aterrorizada no canto, enquanto o mundo se começa a desmoronar...
e eu não quero ser uma criança assustada.
há muito, muito poucas coisas de que não possa falar com o F. de facto acho que só há dois tipos: as coisas de que não consigo falar (e portanto poderia perfeitamente fazê-lo - e seria ouvida - se conseguisse), e as coisas do passado que ainda magoam.
para ele, estão resolvidas. e para mim também deviam estar, porque falámos sobre isso e voltámos a aproximar-nos. e estão, na maior parte das vezes. mas quando me lembro daquele sábado, e das horas que passei a desejar que dissesse alguma coisa, sem saber se era tristeza ou dor ou raiva, aquela coisa má dentro de mim; e da frieza dele quando finalmente veio ter comigo (escrevo isto e sei que estou a escrever uma mentira - ele não veio ter comigo nessa noite. falou comigo e eu nem sequer sei porque o fez); de como me senti sozinha o tempo todo... dói como se tivesse acabado de acontecer
na sexta feira, tu e o C. estavam a conversar no cantinho do c6 que tem um banco, porque não estavam bem. e eu invejo-o, ou invejo-vos, porque me lembro daquela outra sexta feira, e de ter tentado falar contigo (ali mesmo, por coincidência), e de tu não teres ficado.
Self Portrait in Profile
I
am
the one
who wakes up
on your
left.
Vera Pavlova, in If There is Something to Desire, translated by Steven Seymour
(gosto que sejas tu quem me define, meu amor)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
