eu sou estranha. é-me muito difícil pensar com clareza sobre mim... a maior parte das coisas que conheço sobre mim não são fruto de uma longa meditação - surgem-me porque alguém (alguém...) faz as perguntas certas ou então porque de repente e completamente fora de contexto aparece um pensamento luminoso e eu penso meu deus, é isto, eu sou assim. em particular, é-me muito difícil perceber as reacções que tenho quando estou magoada ou zangada ou triste.
parte de mim quer ser fria contigo, quer ir buscar tudo o que possa utilizar como arma e ferir-te. bem, isto, contigo, F., é difícil. (resulta muito bem com o resto da humanidade em geral, a julgar pelas minhas estatísticas). é difícil porque 1) eu não sei se te consigo magoar, 2) ainda que as minhas palavras tivessem o potencial para te magoar, acho que ias ver através de mim, perceber que não sinto nada daquilo e que estou só a tentar ser má, e ignorá-las. (gostava muito de saber se tenho razão acerca disto). ah, e 3) porque tu te afastas ainda mais até estes sentimentos maus passarem.
a outra parte de mim quer chorar (chorar! eu!) e quer que percebas que detesto isto tudo e quer que peças desculpa com o coração e não só porque achas que devias pedir e quer que as coisas não sejam mais estranhas entre nós e quer ver-te e quer ser abraçada por ti. esta parte de mim é terrivelmente submissa e assustadoramente frágil, e quer ajudar-te, também, e quer ouvir-te dizer que está tudo bem (com sinceridade) e quer abraçar-te em vez de te atirar pedras.
também quer, sobretudo, ouvir-te dizer que talvez gostes de mim, talvez precises de mim. (mas acho que preferia morrer a admitir isto)
então, quando eu reparo que a minha parte fria e má está a afastar-te mais ainda (se possível...), fico de repente muito calma por dentro e a raiva vai embora e a minha parte frágil substitui-a. mas neste ponto tu já estás talvez demasiado zangado ou entediado comigo para te importares ou para me ouvires com atenção, e ao fim de algum tempo a mágoa volta em força e eu sinto-me má outra vez. e isto é um ciclo. o problema é que eu nunca tenho a certeza absoluta de querer interrompê-lo. acho que há uma parte de mim que gosta demasiado de ter razões para estar magoada e se agarra à tristeza... "an emotional cutter", como li há tempos.
desculpa