do coração

no entanto - e apesar dos pensamentos cinzentos - hoje é um dia de sol, um dia mais feliz.

Obrigada, F.
"a pessoa que eu sou sempre teve a S. como amiga", disseste-me tu. e eu mordi o lábio para não te responder que acho que já nem sei a pessoa que tu és, agora.
detesto quando as pessoas nos fazem pseudo ultimatos emocionais. "dás-me um beijinho?", perguntou-me a I., há uns dias; quando estávamos longe uma da outra. sim, não foi naturalmente um ultimato intencional, mas de facto foi uma espécie de ultimato. porque, bem; o que é que eu posso fazer? de facto não queria fazê-lo - estava magoada e foi um beijinho não sentido -, mas também não podia magoá-la mais ao responder que não. isto serve de lição também para mim - para me lembrar mais vezes de que os gestos carinhosos devem ser espontâneos, que significam menos, por vezes, quando os forçamos. quando forçamos os outros a dá-los.

minha querida L.,

se eu fosse tão "fisicamente" masoquista quanto sou emocionalmente masoquista, oh, meu amor, o quão mais feliz poderia fazer-te...

amanhã

vejo a bebé e posso abraçá-la e dar-lhe um presente e posso dar-lhe beijinhos e sentir as mãozinhas dela nas minhas enquanto nos aconchegamos para ir mimir. e no dia seguinte podemos trabalhar juntas e brincar um bocadinho e espero fazê-la um bocadinho feliz, e então o coração fica menos, muito menos pesado e muitas coisas boas e tudo dói menos, felizmente.
as coisas pequeninas ajudam. vou tomar um banho quentinho e depois, se não estivesse esta chuva triste, saía comigo mesma para tomar um café. levava talvez comigo a álgebra comutativa e passava um bocadinho agradável na minha companhia; tenho saudades.mas está esta chuva triste. acho que ias ralhar comigo se dissesse isto. é claro que a chuva não está triste nem é triste, é chuva. mas não faz mal. vou deixar-me ser melodramática e tonta por um bocadinho e tentar esquecer o resto.
eu tento pensar racionalmente no assunto e mesmo admitindo que não sou muito boa nisto (não sou nada boa nisto...), por mais cuidadosa que seja chego sempre à mesma conclusão: às vezes (talvez nem sempre, mas às vezes; muitas vezes; hoje) não é o mundo em geral, sou eu.

doía menos se fosse o mundo em geral, sabes?

assim, além da dor natural que não sei porquê não sinto com mais ninguém além de ti (e és logo tu o que te preocupas menos; talvez isto seja o universo a vingar-se de todas as (muitas) vezes em que fiz o mesmo a outros) vem ainda a dor da ausência de coisas (e eu estou demasiado cansada por dentro para querer sequer pensar o que é que "coisas" significa) e a dor de - queria pôr isto de forma delicada, mas para quê? - estar a perder-te para outra pessoa qualquer. ou outras pessoas quaisquer. acho que não interessa demasiado quem (embora interesse um bocadinho).

sou ridícula por ter em mim estes pensamentos. ridícula por não ser mais forte, mais sozinha, mais como tu, talvez.