os 5 mitos matemáticos mais comuns.


encontro-me neste momento a fazer o meu Doutoramento em Matemática, o que significa que, somando à Licenciatura e ao Mestrado que fiz também nesta área, estudo Matemática quase exclusivamente há sete anos. (sete! - isto continua a ser um facto surpreendente para mim.) ao longo deste tempo, cruzei-me com imensas pessoas a quem contei aquilo que faço, e as reacções são sempre imperdíveis - incluem muitas vezes um ar assustado e/ou incrédulo e um a sério?, eu detesto Matemática!. fui-me então apercebendo de que as pessoas têm uma série de ideias sobre a Matemática que não se aproxima (em nada!) da realidade. estas são as que encontro mais vezes:

1. o clássico "eu não gosto de matemática. tive no básico e / ou secundário, e era a coisa mais chata de sempre!" - okay, isto equipara-se a dizer qualquer coisa como: "eu detesto livros. li uma vez um livro dos cinco quando tinha dez anos e detestei, que chato! ". pessoas, a matemática não é nada (nada!) como aquilo que todos aprendemos no básico. um curso de matemática não tem nada a ver, e nenhum matemático trabalha em coisas daquele tipo! a matemática do secundário é essencialmente fazer continhas, e trabalhar com funções (vá, e tem ainda um bocadinho de geometria). isso corresponde a passos de bebé dentro de uma das muitas áreas da Matemática, que é a Análise. existem muitas outras e mesmo dentro da Análise, ninguém faz o género de coisa que fazíamos no secundário!

2. "em Matemática, não precisamos de saber nada de cor." sim, isto é um mito (em que eu também acreditava muito - e que até me deixou mais convicta de estar a fazer a escolha certa, na altura de ingressar no ensino superior). é verdade que o raciocínio lógico é, em Matemática, uma capacidade muito mais valorizada que a simples memorização, coisa que talvez aconteça menos noutros cursos; mas vais precisar de memorizar muitas coisas! em primeiro lugar, porque tudo assenta em definições que tu tens que conhecer. e tu até podes pensar que não precisas de memorizar resultados (como eu pensava), já que se precisares deles em exame podes sempre deduzi-los, mas na prática isto não funciona: imagina que, em cada exercício de exame, além de o resolveres precisas de provar cinco coisas adicionais para lá chegares. ain't nobody got time for that! - literalmente,

3. "és de Matemática? então vá, quanto é que é vinte cinco milhões e trinta e nove mil e quatro a dividir por setecentos e nove?" - sim, eu sou de Matemática, mas não, eu não faço contas. a sério, garanto-vos que quase não trabalho com números! se virem quaisquer apontamentos meus, eles são para aí noventa por centro letras (e símbolos, e letras gregas, e coisas assim).

4. "Matemática... isso não serve para nada!". há muitas coisas que eu podia responder a este argumento - nomeadamente, dando exemplos das (centenas) de coisas essenciais ao nosso dia a dia que usam Matemática de forma absolutamente essencial. ou referindo que muitas disciplinas de Matemática pretendem fornecer ao aluno certas capacidades de raciocínio muito úteis na vida, e que ele não vai adquirir em mais lado nenhum. mas em vez disso, respondo antes com outra pergunta: quando é que a Matemática (e as ciências exactas, em geral) deixaram de fazer parte da formação básica e cultural de um indivíduo? porque é que é aceitável admitir-se alegremente que não sabemos absolutamente nada de matemática, ao passo que é inadmissível ser-se completamente ignorante em relação aos básicos das ciências ditas sociais? não sei, mas acho que esta é uma questão relevante.

5. por último: "Matemática... tu fazes o quê, exactamente? estás a estudar para ires trabalhar para a google, ou lançar foguetões na NASA, ou...?". aqui vou simplesmente dar a minha resposta, muito pessoal. não, não tenho especial interesse nas aplicações da Matemática. o que eu faço, faço-o numa tentativa de alargar as fronteiras do conhecimento, de responder a questões que ainda estão em aberto, de colocar questões em que ainda ninguém pensou. faço Matemática porque é maravilhoso e lindo fazer Matemática, compreender conceitos, conseguir demonstrar aquele facto que andava a escapar-nos por entre dedos há semanas. faço-o porque é belo. e talvez muitos não compreendam esta minha resposta, mas para mim é a melhor de todas.

1 comentário:

  1. Eu percebo o fascínio pela Matemática e, simultaneamente, detesto-a. Ou melhor, ela é que me detesta a mim. Lembro-me que ainda no ensino primário enervei-me de tal forma por não conseguir resolver um problema que arranquei a página do livro escolar. E foi sempre a piorar. Tive sempre 2 ou, na loucura, 3, no ensino básico, até ter chegado ao segundo ou terceiro período do nono ano e ter decidido que, uma vez que seria a minha única negativa, ia deixar de fazer os testes. A este ponto, ir para ciênciais sociais e humanas passou a ser a minha única opção, porque de outro modo ia passar o secundário em stress. Eu odeio não perceber alguma coisa, sentir-me limitada, e era assim que a Matemática me fazia sentir porque, por mais que me esforçasse, era impossível entendê-la. Tive até explicações com uma pessoa licenciada em Matemática, mas nem assim consegui. Não sei o que falhou, poderia dizer que foram os professores mas eu tive os mesmos colegas desde a pré-primária até ao nono ano e, apesar de nenhum ser barra a Matemática, alguns safavam-se muito bem. Acredito que se explique pela existência de vários tipos de inteligência, e o meu cérebro não compreende mesmo a Matemática.

    Em relação ao teu primeiro ponto, eu sei que a Matemática a nível avançado não é como a que aprendemos no básico, mas acho que quem diz o que referes fá-lo no sentido de dizer que quem não percebe patavina nessa altura de escolaridade também não teria vocação para o curso.

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