há uns anos, eu estava numa relação (ainda) feliz - e muito recente, naquela fase inicial em que tudo é absolutamente perfeito. como é natural andava cheia de energia, distribuindo sorrisos e respirando felicidade. e como também acho que é natural, partilhava com as pessoas que me eram próximos detalhes sobre os meus sentimentos, sobre a pessoa com quem estava e sobre a nossa relação em geral.

[repare-se, eu não acho que seja uma daquelas pessoas que começa uma relação e de repente não sabe falar de outra coisa que não o que sente e a pessoa com quem está, de maneira alguma - até porque sou muito reservada por natureza. mas sim, partilhava (moderadamente, penso) a minha felicidade recente com os meus amigos.]

então, um dia, uma pessoa que eu considerava próxima disse-me que não conseguia ficar feliz por mim e pela minha relação, e que preferia não ouvir muito sobre ela, porque isso a deixava infeliz - é que, na altura, ela não tinha ninguém. isto magoou-me muito, achei uma coisa incrivelmente dura de se dizer (e ouvir); abstive-me de fazer mais comentários e deixei o momento passar. mas desde então que este episódio me rói por dentro.

todas as pessoas têm o direito, quase o dever, de se protegerem das coisas que lhes fazem mal, ou que as fazem sentir mal. então, penso, talvez a minha amiga tenha sido apenas razoável em pedir-me educadamente que não manifestasse tão gritantemente a minha felicidade; talvez estivesse só a proteger-se. por outro lado, ela era minha amiga; não poderia ficar genuinamente feliz por mim, independentemente da sua situação na altura (coisa que, aliás, eu fiz por ela vezes sem conta, ficando feliz por vê-la feliz ainda que eu própria não tivesse ninguém a meu lado)? terá a sua reacção sido um mecanismo razoável de auto defesa ou, afinal, essencialmente egoísmo? ainda não tenho resposta.

2 comentários:

  1. descobri a custo, mas ficar genuinamente feliz pelas conquistas dos outros não é uma resposta muito comum. já vi isso como uma espécie de maldade refinada, mas hoje prefiro pensar que as pessoas que vibram com as pequenas e grandes felicidades alheias como se fossem suas, são pessoas com uma qualidade rara. :)

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    1. talvez seja de facto ingenuidade minha esperar felicidade altruísta. (ou então tenho a sorte de estar intimamente rodeada de pessoas com essa qualidade rara, e então não noto o quão raro ela de facto é...)

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