ainda sobre a LFO | the world we live in

espectáculo à parte - maravilhoso, como já disse - houve uma coisa que me entristeceu.

por toda a parte, vimos pessoas a tirar fotografias. à entrada: montes de adolescentes, junto às figuras d'a bela e o monstro e do rei leão, a tentar que a multidão acalmasse o suficiente para poderem tirar fotografias. lá dentro: selfies por todo o lado. pais a forçarem os filhos a ficarem quietos e sorrirem para a fotografia. pais a forçarem os filhos a ficar em frente ao palco (onde, por trás, havia os lugares para a orquestra e o pano de fundo do concerto) e tirarem fotos (dificultando inclusivamente a passagem da multidão, but that's not the point).

eu percebo querer tirar fotografias. ter uma recordação em forma física de uma noite mágica e tão especial - percebo, sim, muito. e esse é um motivo maravilhoso para fotografar, e sei que há muitos para quem é o principal. o problema é que o que vi à minha volta não foram centenas de pessoas desejosas de manter presente um momento tão especial. o que vi, maioritariamente, foi uma ânsia enorme de dizer ao mundo, olhem para mim! nós estamos aqui! e isso entristece-me. como se a vida não valesse pela experiência em si, mas pela percepção dos outros da nossa experiência. não o contentamento interior de ter vivido, mas o grito ao mundo, olhem, eu vi, eu fiz! validem esta memória!

há uns dias apanhei o metro no aeroporto. a descer as escadas à minha frente ia uma família de três: pai, mãe e filho, o pequeno de uns cinco anos no máximo. o pai nunca falou com os outros dois e manteve um ar sériode morte. a mãe ralhava imenso com a criança. chegaram ao metro, sentaram-se... e o pai começou a tirar selfies. duas, três, quatro, sorrindo artificalmente e continuando a ignorar a família. às tantas pára de ignorar a família para poderem tirar selfies em conjunto. quando terminaram, voltaram ao silêncio, todos com ar sério e triste (sim, até o menino) depois dos sorrisos falsos para a fotografia. isto entristece-me tanto. vivemos para quê, afinal? que mundo é este?

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