[desabafo]

os meus pais são religiosos. católicos, para ser exacta. ou melhor: talvez deva dizer que a minha mãe é católica, e o meu pai dirá que é católico (se tiver mesmo que dizer alguma coisa.). isto não me diz respeito e para ser sincera também não me incomoda. o que me incomoda é que, como aconteceu comigo e com as minhas irmãs, o catolicismo da minha mãe está agora a ser activamente impingido à minha mana pequenina.

- sabes, sílvia, no domingo passado a mamã levou-me à missa.

os meus pais são os pais da Diana. cabe-lhes a eles escolherem o modo como devem educá-la, e (infelizmente, a meu ver) parece-me que eles decidiram que a educação dela deve passar pela religião. e agora? não acho que tenha o direito de boicotar (ou tentar boicotar) esta escolha. acredito que esta é uma decisão que deve pertencer aos pais, e se alguém um dia tentar passar por cima de mim no que diz respeito à educação dos meus filhos (como os meus avós tentaram fazer com as netas a vida toda, puxando-nos, nas costas dos meus pais, para a religião deles) vão haver consequências graves; isso é uma das coisas que simplesmente não tolero. argumentar que eu não preciso de me afirmar abertamente contra as crenças dos meus pais, que posso só tentar explicar a minha posição à Diana - tudo bem, mas a Diana é uma menina de sete anos que me adora e a quem eu adoro, e eu não duvido de que a minha tomada de posição, perante ela, em relação a este assunto a ia influenciar grandemente. e, de novo, isto não me parece correcto; é, no mínimo, uma falta de respeito para com os meus pais.

mas e se desrespeitar os meus pais contribuir para o bem estar da Diana?

pessoalmente (e suponho que o ênfase deva aqui estar), e mesmo pondo de parte o facto de eu achar que a coisa razoável é não educar uma criança numa religião, sinto que o facto de ter sido criada numa religião me prejudicou. isto é: para mim, não só é errado (ou, vá, muito questionável) como  ainda activamente prejudicial. e eu gostaria que a minha mana pequenina não tivesse que passar por isto. gostaria que não passassem anos a tentar forçá-la a acreditar em pure nonsense (enquanto outras pessoas - ou talvez (o cúmulo da ironia!) as mesmas - lhe falam sobre a extrema importância do pensamento crítico), gostaria que ela não crescesse a pensar que tem que existir mais alguma coisa, que há coisas inexplicáveis e inquestionáveis. odeio que ela vá crescer a ouvir falar de como o ser humano é fraco, e pequeno, e essencialmente nada sem deus, e talvez a acreditar em tudo isto. odeio esta mensagem de rebaixamento, de falsa humildade, de nós não somos nada. custa-me tanto que ela tenha que passar por isto.

resumindo: não sei o que fazer, não sei o que posso fazer e a ideia de não fazer nada é profundamente revoltante.

4 comentários:

  1. eu acredito em Deus ( não no Deus que a igreja católica pinta e definitivamente não nas regras da igreja) e, precisamente por acreditar em Deus estou 100% de acordo contigo. As religiões organizadas tendem a ser castradoras e plantar sentimentos de culpa em crianças tão novas é muito perigoso, especialmente quando a igreja parece distanciar-se mais do mundo real a cada dia que passa. A minha família também é muito católica e eu conheço bem o meio e a cada dia que passa tenho mais a certeza que o que se prega nas igrejas é contrário àquilo que devia ser a ideia de Deus. Estás numa posição muito complicada e vês as coisas exactamente como eu veria se estivesse no teu lugar (já estive mais do que uma vez num lugar semelhante e também optei por não dizer nada) mas pela minha experiência, ela eventualmente vai achar algumas coisas estranhas (porque, de facto, aquela gente faz pouco sentido) e vai acabar por te perguntar. Provavelmente não agora, mas daqui a três/quatro/cinco anos e, nessa altura, a tua resposta aliada aos valores que lhe tens passado este tempo todo, vão dar muito mais fruto do que qualquer comentário que possas fazer agora... ela vai acabar por se questionar acerca da veracidade e da coerência das coisas que lhe dizem e aí vai falar contigo porque tu és o modelo dela. Nessa altura, depois de ela já ter posto em causa os valores católicos a tua opinião vai ser menos um confronto com a opinião dos teus pais e mais uma confirmação daquela que provavelmente será a opinião dela. Entendo-te muito bem é um processo chato e nenhuma criança devia ter que passar por ele. Um beijo do tamanho do mundo e muita paciência :)

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    1. Anaa, concordo absolutamente. Não acredito em deus, mas já acreditei e mesmo nessa altura não podia ser um deus mais diferente daquilo que nos descrevem na igreja (rancoroso, cheio de "agora vamos lá testar a tua fé," exigindo sempre vassalagem, eu sei lá). Para mim, a igreja é uma organização terrível. Os sentimentos positivos que transmite (amor ao próximo, etc) são uma ninharia comparados com a negatividade que vai incutindo (o pecado, o castigo, a nossa insignificância perante deus, a culpa...) e embora eu julgue que tu tenhas razão - que a Diana vai começar naturalmente a fazer perguntas e a ter dúvidas e a perceber que muitas coisas lá fazem muito pouco sentido - custa-me saber que ela está a crescer neste ambiente que é (pelo menos é o que penso) em última análise nefasto para ela.

      Acho que cada pessoa é livre de acreditar no que quiser, e pertencer à religião que quiser; mas impingir isso a crianças é errado e injusto. Enfim, eu penso que isto vai acabar por ser muito menos dramático do que eu estou a antever e que vai acabar por influenciar muito pouco a Diana (e tenho esperança de que tenhas razão nas tuas previsões :). Ainda assim, que desperdício do tempo e das capacidades dela, que coisa tão desnecessária que isto é.

      Muito obrigada pelas tuas palavras.

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  2. Percebo a tua confusão. Aos 6 anos fui para a catequese e daí fiz todos os passos até ter o Crisma aos 15. Felizmente para mim, isso não me prejudicou nem toltou o meu julgamento, pois para dizer a verdade, nunca prestei muita atenção aos sermões da missa nem ao que era dito na catequese. As únicas coisas que me lembro são de algumas histórias da bíblia. Não sei se é o caso da tua irmã, mas no sítio onde cresci pôr os miúdos na catequese era o mesmo que levá-los à escola: toda a gente o fazia e o estranho era fazer o contrário. Claro que isso fez com que muitos miúdos, lá para os 12, 13 anos quando se começaram a aperceber das coisas, não quisessem lá estar e acabassem por deixar de ir. Eu continuei por razões um bocado parvas: gostava de cantar na missa, de ver os meus amigos aos fins de semana e das excursões no final do ano. Já o meu irmão, três anos mais novo, quis parar de ir os 11 anos porque, para além daquilo ser uma seca, interferia com os treinos de futebol. A minha mãe obrigou-o a ficar até fazer o Crisma. Ela nem é uma cristã daquelas fervorosas que vai todos os domingos à missa, mas como é algo que toda a gente fazia, o meu irmão teve que levar com aquilo mais uns anos. No dia em que ele fez o Crisma disse a gozar "esta é a última vez que me vês numa missa" e de facto, de expontânea vontade, nunca mais foi a nenhuma.

    Divaguei um bocado, mas o meu ponto é: talvez tenhas que ter em conta o ambiente onde a tua irmã está. No meu caso, se a minha mãe não me tivesse posto na catequese, seria vista como uma outsider pelos meus colegas e amigos de escola (terrinha problems). Mais tarde nada disso seria significante, mas com 6 anos acho que me teria sentido triste com isso. A única miúda que andou connosco na escola e não ia à catequese chegou a pedir aos pais que a deixassem ir, não porque nós a tratassemos mal por não ser católica, mas porque na segunda-feira vínhamos a contar histórias e a cantar músicas que tínhamos aprendido no fim de semana, como se partilhássemos private jokes que ela não percebia. Se, mesmo com todas as coisas que não fazem sentido, for algo que facilite a vida da tua irmã um bocadinho, talvez não devas dizer nada por agora. De qualquer forma, ela vai começar a duvidar do que ouve mais tarde ou mais cedo. O que por outro lado pode ser bem pior do que se sentir à parte.

    Algo tão complexo (e até assustador) como a religião nunca deveria ser dado a conhecer aos miúdos tão novos. A ideia do inferno, o teres que te confessar, tomar a hóstia, aceitar que "Deus criou a mulher e o homem" é a meu ver demasiado para alguém tão pequeno lidar. Embora em miúda não me tenha apercebido de nada, cada vez que hoje em dia vou à missa e oiço a sério o sermão, assusto-me com a quantidade de baboseiras que me passaram ao lado. Nem imagino o efeito que isso possa ter em idades mais susceptíveis.

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    1. marie, acho que o teu ponto é muito pertinente e para ser sincera não tinha sequer pensado nisso. E acho que há uns anos atrás - por exemplo, na altura em que eu comecei a ter catequese - teria acontecido exactamente o que descreveste: se eu não tivesse frequentado a catequese seria "a rapariga diferente", receberia olhares de estranheza de toda a gente, enfim, todas essas coisas. Mas acho que hoje em dia até nem tanto (especialmente porque nós somos de uma terra muito pequena com várias terras pequenas e muito pequenas à volta, e este acaba por ser um meio um bocado fragmentado. Então as meninas frequentam catequeses diferentes e portanto não há tanto a questão da exclusão ).

      Também confesso que é hoje em dia que a igreja me assusta, em pequena penso que não me apercebia sequer do quão esmagadora e quase castrante ela pode ser. Ainda assim, gostava muito de poupar a Diana a esse ambiente. Reconheço (mas não sei se isto é uma coisa boa ou não! ) que acho que estaria mais que disposta a pôr de lado os meus princípios se isso a fizesse uma criança mais integrada ou feliz, mas penso que esse não é o caso. Em todo o caso, obrigada por me chamares a atenção para esse ponto de vista. :)

      (um pequeno à parte, semi relacionado: eu gostava muito que a Diana (e, no futuro, os meus filhos) crescesse livre de preocupações sobre o que os outros pensam, soubre "fit in" e tudo isso; que crescesse sabendo que ser diferente não é uma coisa má, pelo contrário. reconheço que isto é um bocado utópico e que a realidade nem sempre é compatível com estas ideias e que às vezes custa, mas enfim: sonhamos sempre com uma versãomelhor do mundo...)

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